quinta-feira, 8 de novembro de 2012

15. A desvantagem de estar adiante no tempo

E quando o tempo fecha, qual a saída?

O canhão do czar no Kremlin de torres douradas e molhadas: construída em 1586, a arma nunca foi usada
Eu bem disse que estar à frente do meu tempo nem sempre era algo positivo. Um dos fatores que mais bagunçaram a viagem foram as sete horas de fuso com relação ao Rio. Ficou complicado ajustar o sono para quem costuma dormir por volta de 1h da madrugada (ainda 18h em Moscou e em São Petersburgo). E tentar acordar 8h para aproveitar as cidades? Impossível! Mesmo sem noitadas em limusines e sem entornar litros de vodca, era comum dormir às 4h, 5h. E levantar 9h. Mas era dureza e obviamente foi cansativo. Afinal, os 20 anos já se foram faz tempo. Eu dava tchau para a família no Skype, dormia um pouco, acordava, dava oi... e no Brasil ainda era hora de ir para a cama. Que confuso horário!
A capa azul que eu preferia não ter tirado da mala. Mas foi útil
Os dias de chuva em Moscou e São Petersburgo também incomodaram um pouco. Claro, todo turista deve ter no programa alternativas para dias assim. Em Moscou há estações do metrô, museus, igrejas e até shoppings... SPB tem o Hermitage. No meu caso, porém, o principal contratempo foi ter que visitar o Kremlin de  capa plástica. A previsão era de chuva terça e quarta, o Kremlin fecha às quintas; e sexta era dia de mudar de cidade. Sem alternativa climática, lá fui eu visitar as atrações atrás das muralhas numa manhã de chuviscos. É tudo bonito, mas certamente ficaria mais bonito sem água caindo e nuvens pesadas.
Meus sapatos depois de um dia de chuva
Meus sapatos noutro dia mais chuvoso ainda
Os bilhetes para o Kremlin são vendidos em tendas perto dos Jardins de Alexandre. E só procurar uma fila e chegar lá. Há duas entradas, uma pela Torre Borovitskaya, próximo da Câmara das Armas; e outra pela Ponte Trinity, na muvuca da Praça Vermelha. Você pode pôr mochilas e bolsas num guarda-volume perto das bilheterias (50 rublos). Mas lá dentro também tem uma sala para deixar objetos e roupas, principalmente as molhadas de chuva, se for o caso.
Frente do ingresso para as catedrais e verso do outro, para a Câmara
Pode-se comprar ingresso só para o complexo de catedrais atrás dos muros vermelhos da praça (350 rublos, R$ 25). Outra opção é comprar a dobradinha (1.050 rublos, R$ 75) com entrada para a Câmara das Armas, com tesouros dos czares, do século XVI até quando a corte foi para São Petersburgo, por volta de 1711. O ingresso para a Câmara é vendido por horários, creio que tem um limite de visitantes por período. Dentro, há carruagens, roupas, armaduras... E vigias proibindo fotos. Nesse mesmo edifício tem uma sala com joias imperiais e soviéticas, chamada Fundo de Diamantes. Mas tem uns horários restritos, não está sempre aberta.  Quando cheguei nela estava fechada para visitação. Não esperei pelos diamantes. Eles são eternos, eu não. No pátio das catedrais ficam as igrejas de cúpulas superdouradas: a Catedral da Anunciação é a maior delas, a Catedral da Assunção e a Catedral do Arcanjo. Além delas, há o Campanário de Ivan, o Grande. Um campanário sem o sino que para ele foi forjado. O dito cujo pesa 200 toneladas e nunca subiu a torre. Quebrado, é point para fotos turísticas.



O sino era para ficar no alto da torre de Ivan, mas ele nunca chegou lá
A ponta do sino e o cortado Campanário de Ivan



A Catedral da Anunciação e suas cúpulas em forma de bulbo

Hora de ir embora do chuvoso Kremlin, pela Ponte Trinity
 
Menos, São Pedro, menos...
 Como quem está na chuva é para se molhar, caminhei muito nos dois dias de chuva em Moscou. O mais curioso foi notar que, enquanto eu me cobria com minha capa azul de camelô, boa parte dos russos e russas - crianças, jovens ou idosos - que por mim passavam não estava nem aí para a chuva fina e intermitente. Para eles, devia ser como se refrescar num chafariz no verão carioca. Claro, pensei, essa chuvinha é moleza para quem encara até 15 graus negativos e rios congelados no auge do inverno. Eta, povo impermeável!

Depois que São Pedro me atendeu, uma vista do Kremlin a partir do Rio Moscou


terça-feira, 6 de novembro de 2012

14. O Hermitage é do outro mundo


Ostentar, embevecer, babar



A "Arca russa", de Aleksandr Sokurov, ajuda a entrar no clima do Hermitage. O filme, de hora e meia, mostra salas espetaculares, e conta do seu jeito a História da Rússia, mas confesso que pouco entendi essa parte. Contudo, nenhum filme, nem mil fotos, nem o Google, nem as palavras de quem já foi preparam de fato o visitante para encarar o Hermitage como se já soubesse algo dele. Ver o palácio de fora, à noite ou de dia, já é um espetáculo grandioso. Entrar nele é ser devorado por uma sucessão de imagens fabulosas. Haja pernas, haja fôlego cultural, haja olhos, haja adjetivos!
Aqui e abaixo, detalhes do piso de duas das salas

Um lustre. Nada mais a dizer
Você olha para o chão e é uma obra de arte; olha para o teto, o luxo salta aos olhos; nas salas, obras maestras de marcenaria, da joalheria, da arquitetura, do artesanato; em outras salas, tesouros da arte, de Rubens a Gauguin, de Rembrandt a Ticiano, de Michelangelo a Matisse. Pelo folheto do museu, são 400 salas, em três andares. O andar térreo é mais voltado para antiguiddades. No primeiro, e principal, andar estão a maior parte dos motivos para deslumbramento. O filme de Sokurov, aliás, se passa quase todo neste andar. Como ele não tem cortes, quem já percorreu o museu pode acompanhar o trajeto da câmara quase sem se perder. No segundo andar estão Cézanne, Matisse, Picasso, Van Gogh, Kandisnky e o emblemático "Quadro negro", de Malevitch. O Hermitage vive repleto de turistas, mas é tão gigantesco que sempre dá para apreciar o que você quiser sem um grupo à sua frente. Claro, às vezes é preciso um pouco de paciência.
O ingresso
Como comprei ingresso para dois dias seguidos, fui sábado à tarde sem compromisso, mesmo com as obras imperdíveis. Durante umas três horas, percorri principalmente o segundo andar e anotei as salas que gostaria de rever com mais calma. Tinha visto em todos os guias que o museu fechava às 18h aos sábados, mas estranhei que os muitos vigias não expulsassem o povo a partir das 17h30m. Saí 18h30m, e só então descobri que puseram umas placas nos guichês avisando da ampliação do horário aos sábados, até 21h. Mas nesse dia, após a manhã em Peterhof, eu já estava cansado de andar. O domingo, confome o meu iPod tinha avisado,  amanheceu chuvoso. Então, já era esperado que choveria turista também no museu. E lá estavam milhares deles. Havia disputa até para arrumar vaga no amplo guarda-volume. Os grupos para visitas guiadas se aglomeravam.
Meu folheto com anotações sobre o segundo andar
Abri meu folheto já rabiscado e fui à luta, a partir do terceiro andar. Depois, novamente o segundo andar, com indas e vindas para achar alguma obra que não encontrei na primeira passagem. Há sempre obras emprestadas para exposições, como ocorre em qualquer museu. Creio que também  há sempre algumas salas fechadas para reforma, o que às vezes atrapalha o percurso.  Mas em geral é fácil se guiar pelo folheto. Na página  <http://www.hermitagemuseum.org/> pode-se baixar o plano do museu também, com informações e dicas. Em poucas salas é proibido fotografar. E centenas de funcionários (a maioria senhoras na faixa dos 60) fazem o papel de vigias, em cadeiras entre uma sala e outra.

Reprodução do site, o mesmo segundo andar
Pintado de alto a baixo, esse corredor (sala 227) merece destaque de tão fabuloso
A  capa do DVD de Sokurov
Na volta da viagem, revi "Arca russa", mais grudado ainda na TV. Ao mesmo tempo que me deliciava por ter visto ao vivo tanta coisa bonita, às vezes lamentava nem me lembrar de ter reparado em tal ou qual tela ou sala magnifícas. Depois, pesquisei esse link, um dos que ajudam didaticamente a conhecer os personagens do filme.
http://ocinemanoensinodahistoria.blogspot.com.br/2009/05/arca-russa-2002-de-aleksandr-sokurov.html

Este mosaico no piso (sala 204) aparece no filme de Sokurov
A sala das estátuas (241) e de belo teto

A sala 238, dedicada a pintores italianos
A sala com telas de Rubens (247) e cabeças de turistas
Uma simples maçaneta
Rubens também em russo
Panorâmicas de salas que demonstram o luxo do palácio. Elas estão marcadas em verde claro na planta do museu




Ao fundo, uma tela de Horace Vernet, no terceiro andar. Nada anotei sobre a escultura


Um móvel dos soberanos
Para finalizar, Malevitch (sala 334)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

13. Salve São Petersburgo


Fim de tarde no Rio Neva
Como Veneza? Um exagero. Mas é um espetáculo
"Moscou até agora é a barba russa, e Petersburgo já é um alemão perfeito. Como a velha Moscou se distendeu, se alargou! Como ficou descabelada! Como se deslocou, como se espalhou, como se empertigou a chique Petersburgo! (...) Moscou é uma velha caseira (...) não quer saber o que se passa no mundo;  Petersburgo é um rapazinho cheio de expediente, nunca fica em casa, sempre se veste com capricho e, todo enfeitado diante da Europa, faz uma reverência para as pessoas de além-mar"
Nikolai Gógol, "Notas de Petersburgo de 1836" (Cosacnaify, tradução de Rubens Figueiredo)


A praça do Hermitage: grandiosidade pouca é bobagem
Monumento no centro da praça
Nota-se que Gógol era um russo de fé que amava São Petersburgo. E ele viveu bem antes dos bombardeios nazistas e da posterior ressurreição da cidade. Teria sofrido um bocado. Não sei se ele gostaria de estar lá em outubro de 1917. Em 2012, sem Gógol para narrar, a cena é: cortada por canais e com mais de 500 pontes (segundo cartaz de alerta nos barcos que fazem passeios por suas águas), SPB tem um charme especial e ganhou o apelido de Veneza do Báltico. Mas melhor evitar comparações, pois os canais da cidade italiana são outros 500. Trocadilho infame de lado, o que se vê na foto acima é que a praça do Hermitage não tem pombos. É ampla, limpa e linda. Um tanto escura demais à noite, mas nada perigosa. O museu é um capítulo à parte, logo chego nele.
A Igreja do Sangue Derramado, à beira do canal e com as torres iluminadas pelo sol
Uma das torres da igreja
Outro ponto turístico que está em todas as fotos de São Petersburgo é a Igreja do Sangue Derramado (ou da Ressurreição), com suas paredes de mosaicos, seu colorido, sua imensa torre principal. Ela pode ser admirada desde a Nevsky.
Além dela, para quem gosta de projetos arquitetônicos faraônicos, jardins bem-cuidados e chafarizes de todo tipo, vale o passseio até Peterhof, que chamam de "a casa de praia do imperador Pedro, o Grande". A praia tem um quê de Ilha do Governador, mas os jardins do palácio jorram água a cada esquina, em diferentes desenhos, encantando a turistada. Peguei um barco que sai do cais nos fundos do Hermitage (1.000 rublos, R$ 72, não é barato), ida e volta, 35 minutos em catamarã rápido pelo Neva e o Golfo da Finlândia. No cais, paga-se mais  450 rublos  (R$ 32) para entrar na parte inferior dos jardins. A parte alta, dizem, é gratuita. Depois de mil chafarizes, não visitei o outro lado. Para entrar por lá, acho que o caminho é ir de van, trem ou ônibus.

Mais um foto do crepúsculo no Rio Neva
A maior parte das fotos desse post foi feita num passeio no meu último dia na cidade. Chovera de manhã; à tarde, tempo ainda nublado, parei para um café na Nevsky Prospekt, a Ataulfo de Paiva deles, onde todos passeiam, todos se cruzam, todos batem perna, todos passam a caminho de onde quer que seja. A qualquer hora. Eu queria fazer o passeio de barco pelos canais, mas não com tempo ruim. Então, bem no fim de tarde, as nuvens começaram a abrir. Ficam dezenas de pessoas pelas pontes anunciando os passeios e chamando turistas. Tinha visto que custava 600 rublos (R$ 43), mas quando decidi ir, por algum motivo, cobraram 300 rublos. Seria o trajeto? Não fiz questão de descobrir. Foi uma hora navegando pelos canais. A narração era em russo, mas mesmo que fosse em inglês eu não entenderia. O barco saiu por volta das 19h30m, da Ponte Zelenyi (Nevsky com Reki Moyki), e o sol começava a baixar. Fez a curva à esquerda em frente ao hotel Pushka Inn e foi para o Neva; seguiu pelo rio e dobrou à direita depois do Jardim Botânico (Fontanka). Entrou no canal do Teatro Mariinskyi e voltou pela Reki Moyki até o ponto de partida. À noite, parece que é comum nos passeios distribuírem balões (tipo japonês) aos turistas. Em horas de grande movimento nos canais, são vistos dezenas de pontos luminosos no céu da cidade. Outra curiosidade noturna de São Petersburgo são as festas em vans e limusines. Sexta e sábado, principalmente, é grande a circulação de limunises, vans e furgões. "Tudo incluído!", lê-sem em alguns desses carros. Jovens (só vi jovens) reúnem-se e enchem a cara enquanto passeiam em automóveis com vodca (e sabe-se lá que outros líquidos), música alta e qualquer outro ingrediente que combine com a sentença "noitada animada". Em alguns pontos eles se encontram e fica um estacionamento de limusines e afins, enquanto a garotada toma... ar.


Escultura numa ponte no Canal Fontanka
O mapa do passeio. A linha vermelha marca o percurso. Desculpem, ficou torto
Ponte e luz no Neva
Outra ponte sobre o Neva
Do barco, a Fortaleza de Pedro Paulo (1703)
Outro trecho do passeio

Detalhe de lampião numa rua
Cartaz no barco avisa: SPB tem mais de 500 pontes, mas você, turista, tem apenas uma cabeça. Cuide dela! Admito, eu fotografava algo e  quase dei uma cabeçada numa ponte; algumas são bem baixinhas e o teto do barco passa rente a elas. O barqueiro buzinou e um turista me alertou


Largo e prédio próximo ao Pushka Inn
Aqui e abaixo, cenas noturnas da Nevsky

"Não há nada melhor do que a Avenida Niévski", escreve Gógol no livro que leva o nome da rua
A lateral do Hermitage, com lua


Ele, de novo, em frente à histórica Estação Finlândia: Lênin, pode mandar parar de chover, por favor?! Spaciba


Reki Moyki: o hotel está logo ali à esquerda (toldo preto)

Geral de Peterhof: Pedro, o Grande, queria imitar Versalhes. Haja chafariz! Lá no fundo, o cais no Golfo da Finlândia
A mesma cena, sem 180 graus

Dourado e água em frente ao palácio principal
O bilhete para Peterhof

À beira do Neva, encontro de carros grandes: miniboates ambulantes

SPB não tem mais limusines que  NY, mas tem um bocado delas